terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Eu amo ...



"Eu amo desorganizada, desenvergonhada. Tenho um amor que não é fácil de compreender porque é confuso. Não controlo, não planejo, não guardo para o mês seguinte. A confusão é quase uma solidão adicional. Uma solidão emprestada. Sou daquelas que pedirá desculpa por algo que o outro nem chegou a entender, que mandará nova carta para redimir uma mágoa inventada, que estará se cobrando antes de dizer. Basta alguém me odiar que me solidarizo ao ódio. Quisera resistir mais. Mas eu faço comigo a minha pior vingança. Amar demais é o mesmo que não amar. A sobra é o mesmo que a falta. Desejava encontrar no mundo um amor igual ao meu. Se não suporto o meu próprio amor, como exigir isso?
Um dia li uma frase em Hegel: "nada de grande se faz sem paixão". Mas nada de pequeno se faz sem amor. A paixão testa, o amor prova. A paixão acelera, o amor retarda. A paixão repete o corpo, o amor cria o corpo. A paixão incrimina, o amor perdoa. A paixão convence, o amor dissuade. A paixão é desejo da vaidade, o amor é a vaidade do desejo. A paixão não pensa, o amor pesa. A paixão vasculha o que o amor descobre. A paixão não aceita testemunhas, o amor é testemunha. A paixão facilita o encontro, o amor dificulta. A paixão não se prepara, o amor demora para falar. A paixão começa rápido, o amor não termina.
Não me dou paz sequer um segundo. Medo imenso de perder as amizades, de apertar demais as palavras e estragar o suco, de ser violento com a respiração e virar asma. Até a minha insegurança é amor. O pente nos meus cabelos é faca enquanto é garfo para os demais. Sofro incompetência natural para medir a linguagem das laranjas, acredito desde pequeno que tudo o que cabe na mão me pertence. Minha lareira não dura uma noite, esqueço da reposição das achas, do envolvimento da lenha no jornal, de assoprar o fundo. Brigo com o bom senso. Ou sinto calor demais ou sinto frio demais. Uma ânsia de ser feliz maior do que a coordenação dos braços. Um arroubo de abraçar e de se repartir, de se fazer conhecer, que assusta.Parece agressivo, mas é exagerado. Conto tragédias de forma engraçada, falo de coisas engraçadas como uma tragédia. Nunca o riso ou o choro acontece quando quero. Cumprimento como se fosse uma despedida. Desço a escada de casa ao trabalho com resignação, mas subo na volta pulando os degraus. Essa sou eu: que vai pela esperança da volta."


Fabrício Carpinejar

Você é...






"Você é os brinquedos que brincou, é os nervos a flor da pele, os segredos que guardou. Você é sua praia preferida, aquele amor atordoado que viveu, a conversa séria que teve um dia com seu pai, você é o que você lembra. Você é a saudade que sente da sua mãe, a infância que você recorda, a dor de não ter dado certo, de não ter falado na hora. Você é aquilo que foi amputado no passado, a emoção de um trecho de livro, a cena de rua que lhe arrancou lágrimas, você é o que você chora. Você é o abraço inesperado, a força dada para o amigo que precisa. Você é o pelo do braço que eriça, a sensibilidade que grita, o carinho que permuta. Você é a palavra dita para ajudar, os gritos destrancados da garganta, os pedaços que junta. Você é o orgasmo, a gargalhada, o beijo, você é o que você desnuda. Você é a raiva de não ter alcançado, a impotência de não conseguir mudar, você é o desprezo pelo que os outros mentem. Você é aquele que rema, que cansado não desiste, você é a indignação com o lixo jogado do carro, a ardência da revolta. Você é aquilo que reivindica o que consegue gerar através da sua verdade e da sua luta, você é os direitos que tem, os deveres que se obriga. Você é a estrada por onde corre atrás, serpenteia, atalha, busca, você é o que você pleiteia. Você não é só o que come e o que veste. Você é o que você requer, recruta, rabisca, traga, goza e lê. Você é o que ninguém vê.''


Martha Medeiros

De todo o meu passado ...

Que o verso não acabe...




Que o verso não acabe, que a inspiração não se atrase para a próxima sensação. Que o silêncio não atrapalhe, que a poesia atravesse a indelicadeza dos dias. Que o olhar encontre um porto. Que os milagres desaguem no corpo.Que a gente se ame, muito e tanto. Sempre." 


Priscila Rôde

Benditos



“Benditos os que conseguem se deixar em paz. Os que não se cobram por não terem cumprido suas resoluções, que não se culpam por terem falhado, não se torturam por terem sido contraditórios, não se punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o melhor que podem. Se é para ser mestre em alguma coisa, então que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao mesmo tempo ser livre. Adequação e liberdade simultaneamente? É uma senhora ambição. Demanda a energia de uma usina. Para que se consumir tanto? A vida não é um questionário de Proust. Você não precisa ter que responder ao mundo quais são suas qualidades, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bem-intencionado e que muda de opinião sem a menor culpa. Ser feliz por nada talvez seja isso."



Marta Medeiros

Que venha...



"Que venha a semana virgem, a narrativa nova, as experiências de crescimento, a generosidade, o calor amoroso nas mãos para o que nos propusermos fazer. Que tudo se ilumine no olhar inédito! E que tenhamos mais articulação para agradecer do que para reclamar! MUDE A CASA DE SENTIMENTO! Você não é um disco arranhado!"


Marla de Queiroz

Está tudo planejado...




"Está tudo planejado: se amanhã o dia for cinzento, se houver chuva ou se houver vento, se eu estiver cansado dessa antiga melancolia cinza fria sobre as coisas conhecidas pela casa a mesa posta e gasta está tudo planejado apago as luzes, no escuro e abro o gás de-fi-ni-ti-va-men-te ou então visto minhas calças vermelhas e procuro uma festa onde possa dançar rock até cair"


Caio Fernando Abreu

Diário ...




E esse diário que não é antigo, mas abandonado. Ficou ali num canto, interrompido bruscamente, no meio não de uma frase, mas de uma palavra, como tudo que ficou pelo caminho relatado dentro dele. Parei porque as minhas frases perderam o ritmo da respiração e restou um grande sufoco .Coisas que eu tentava aliviar com os vários e vários suspiros profundos, a mão no peito. Era um grito abafado. Era dor pungente. Uma angústia latejando de um amor(?) cheio de farpas.Uma vontade de você tão violenta que me deixava trêmula e tola. Ficava tão nervosa contigo ao meu lado que esquecia de ser interessante... e os meus comentários eram sempre sem consistência e o meu humor infantil e bobo... Depois a tentativa de perdoar a mim mesma por tudo: por ter me apaixonado, por não ter te seduzido o bastante, por não conseguir esquecer e, agora, por te dizer essas coisas todas. Mas precisava me livrar disso, sei que precisava .

AMOR




OS NOMAIS